FRIEREN: Onde a eternidade encontra o efêmero

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Poder viver por séculos é assistir ao mundo se transformar incontáveis vezes: ver reinos nascerem e caírem, cidades florescerem e ruírem, e pessoas entrarem e saírem da sua vida como capítulos breves. Para quem vive tanto tempo, as amizades humanas podem parecer efêmeras, como o florescer rápido de uma primavera. No entanto, para Frieren, que caminhou por eras inteiras, foi justamente nesses encontros passageiros que ela descobriu a intensidade e a beleza da vida.

Ao lado de Himmel, Heiter e Eisen, a elfa percorreu terras distantes, enfrentou perigos e celebrou vitórias. Mas, no calor da aventura, ela não percebeu que cada riso compartilhado, cada conversa à beira da fogueira e cada silêncio confortável era, para eles, parte de um tempo que nunca voltaria. Frieren, envolta na segurança da sua longevidade, acreditava que haveria sempre outro dia para perguntar mais, para conhecer melhor, para simplesmente estar junto.

Quando a missão terminou e cada um seguiu seu caminho, Frieren prometeu reencontrá-los. Para ela, dez anos eram um piscar de olhos. Para eles, era quase o fim da estrada. E foi só ao retornar e encontrar Himmel envelhecido, prestes a partir, que algo se quebrou dentro dela. O adeus não foi apenas uma despedida, mas um choque, a constatação de que ela tinha deixado o tempo levar embora o que havia de mais precioso: a chance de realmente conhecer aquelas pessoas enquanto podia.

A morte de Himmel foi o primeiro golpe que fez Frieren sentir o peso da eternidade. Pela primeira vez, ela olhou para trás e percebeu quantos detalhes deixou passar, quantas conversas poderiam ter sido mais longas, quantos olhares poderiam ter sido mais atentos. Era como se, em todo aquele tempo, ela nunca tivesse parado para ver de verdade.

Frieren percebeu que, enquanto ela continuaria a caminhar, os outros partiriam, um por um. A eternidade, até então, parecia uma dádiva. Agora, tinha o peso de uma condenação.

A partir daí, sua jornada deixou de ser apenas pelas estradas do mundo. Tornou-se uma travessia interior, uma tentativa de aprender a valorizar o efêmero antes que ele se vá. Frieren começou a observar mais, a escutar mais, a guardar memórias não apenas na mente, mas no coração. Ela passou a buscar não só feitiços e conhecimento, mas também as histórias, os sonhos e os medos daqueles que cruzavam seu caminho.

A segunda parte da jornada é marcada por uma mudança quase imperceptível, mas fundamental: Frieren começa a reparar mais. Conversas banais ganham peso, gestos simples se tornam preciosos. É como se, pela primeira vez, ela buscasse viver no mesmo ritmo daqueles que estão ao seu lado, consciente de que não poderá repetir aquelas cenas.

Foi nesse novo momento que surgiu Fern, a aprendiz deixada aos cuidados de Heiter. Diferente de Himmel, Heiter e Eisen, ela não conheceu a Frieren em uma grande aventura já formada. Fern chegou quando a elfa já carregava arrependimentos e um novo desejo: o de aprender a viver o presente.

Ao lado de Fern, a jornada ganhou outro ritmo. Frieren passou a ensinar feitiços e truques, mas também começou, sem perceber, a ensinar a si mesma a importância de ouvir, observar e se conectar. A relação das duas não é feita de grandes feitos heróicos, mas de momentos cotidianos: um jantar simples, um gesto de cuidado, um silêncio que não é vazio..

O anime constrói, com delicadeza, uma reflexão sobre mortalidade e conexões humanas. Ele mostra que a longevidade pode ser uma prisão disfarçada se não aprendermos a valorizar o presente. Frieren descobre que não basta sobreviver a todos, é preciso estar com todos enquanto ainda há tempo.

Talvez seja essa a magia mais poderosa da história: lembrar que o valor da vida não está em quantos anos ela dura, mas no quanto conseguimos nos conectar no tempo que nos foi dado.

Porque, no fim, não importa quantos séculos você viva: sempre haverá instantes que valem mais do que uma eternidade inteira.

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