
Existem fomes que aquele “pãozinho” ou um pedaço de bolo não vai nos saciar. E que muitas vezes tentamos nomear, mas não conseguimos. Uma fome que não mora no estômago, mas no peito. Uma carência afetiva que vai se acumulando com o tempo (às vezes desde a infância), e que vai nos moldando de formas silenciosas.
Pode ser a fome de amor, de abraço, de ser ouvida com atenção. Fome de presença, de acolhimento, de ser reconhecida por quem a gente ama de verdade. Aos poucos, essa carência silenciosa vai se transformando numa urgência — a urgência de sentir algo, de preencher um vazio que parece não ter fim, de controlar qualquer parte do caos. E quando essa fome transborda, ela se transforma em compulsão.

Essa é a fome que costura a narrativa de Compulsão Assassina (2013). Uma adaptação mais “romântica”, provocativa e tragicômica do clássico sul-coreano 301/302, de 1995. Um thriller com pitadas de comédia erótica, onde a estética é quase uma personagem: vermelho e preto, vida e morte, apetite e repulsa.
Hoje, quero te convidar a saborear esse filme que tanto me atravessa. Não só porque gosto dele, mas porque ele me inquieta. Me cutuca onde ainda dói. Há algo nas personagens que fala direto com partes minhas que nem sempre sei nomear. Elas são feitas de fome, assim como eu. Mas não é fome de comida, é uma fome que vai crescendo por dentro, silenciosa, quando o afeto vira ausência. E aí a gente tenta preencher esse vazio como pode: com comida, relacionamentos, compras, excesso de trabalho, vícios ou controle.

De um lado, Amy (Heather Graham). Uma mulher obcecada por comida, mas seu prazer não está em comer. Está em alimentar. Em preparar pratos elaborados e oferecer ao outro o melhor de si, na esperança de ser amada por isso. Desde sempre, Amy buscou aprovação: da mãe, do marido, de quem quer que estivesse por perto. Cozinhava com devoção, paixão e prazer. Preparava jantares como se cada prato fosse um pedido de amor. Desejando que todo aquele cuidado culinário fizesse seu marido enxergá-la além do pássaro exótico que ele tanto admirava.
A comida não é o problema. É o sintoma. O que ela realmente quer devorar é a atenção, o carinho, o amor que nunca foi seguro para ela.

Cozinhava com paixão, com prazer, com desejo de também ser desejada. E mesmo assim foi traída. Pelo oposto dela: uma mulher que comia fast food, que se sujava, que não tinha pudores. E essa traição diz muito. Diz sobre o quanto tentamos ser “digestíveis” para o outro.
Sobre o quanto nos tornamos pratos bem apresentados na esperança de sermos escolhidas. E o quanto, no fundo, ninguém quer aquilo que nos esvazia por dentro.
Quando seu relacionamento termina de forma abrupta e violenta, Amy redireciona sua compulsão. Toda a carência, o desejo de ser necessária, o amor não correspondido, tudo isso encontra um novo foco: Saffron, a vizinha do 302.

Saffron (Carrie-Anne Moss), encarna o lado oposto da mesma dor. Ela é o ideal que Amy idolatra: forte, impecável, bem-sucedida. Mas sua perfeição é uma máscara. Ela também vive uma compulsão, a de manter a imagem, de estar acima, de nunca mostrar vulnerabilidade.
Uma atriz famosa, coberta de brilho por fora e despedaçada por dentro. Glamourosa, intensa e inatingível, Saffron não consegue comer. Para ela, o alimento carrega a mesma carga dos afetos que lhe foram impostos: é invasivo, sujo e abusivo. Tudo o que entra, ela rejeita. Nada é acolhido. Ela devolve ao mundo qualquer tentativa de nutrição, física ou emocional. Porque para ela, tudo era ameaça, até mesmo o afeto.

E assim, duas fomes se encontram. Enquanto Amy implode, Saffron congela Uma quer oferecer e a outra não consegue receber. Duas formas de lutar contra a mesma dor. Duas tentativas falhas de se proteger da ausência de um amor que não veio, ou que veio de forma distorcida, condicional e manipuladora

Quando conhece Saffron, Amy desenvolve um fascínio que ultrapassa o cuidado: quer alimentá-la, quer tocá-la, quer consumi-la. Olha para ela com a fome de quem quer engolir o outro por inteiro.

É nesse encontro entre fome e repulsa que nasce um jogo intenso entre as duas. Amy quer oferecer, alimentar, preencher ela com aquilo que sente faltar em si.

Saffron, por sua vez, rejeita ser preenchida, como quem aprendeu que o afeto sempre veio envenenado. Cada gesto entre elas é uma tentativa de aproximação e, ao mesmo tempo, um movimento de fuga.

Entre pratos e vômitos, o que se revela não é só um embate entre duas mulheres, mas entre duas formas de dor. Dois corpos marcados por ausências diferentes tentando, de maneira desesperada, preencher o que parece ser impossível de saciar.

Amy e Saffron, em suas dores espelhadas, se reconhecem. A ordem encontra o caos. A contenção encontra o excesso. Mas nenhuma das duas sabe o que é ser amada sem medo, sem dor, sem ferida.

O que se desenrola não é apenas o drama de duas mulheres, mas o embate visceral entre duas feridas abertas. Uma faminta por afeto. A outra intoxicada por tudo que lhe foi imposto como “amor”.
Na vida real, também nos perdemos nesse desequilíbrio. Entregamos mais do que temos. Nos agarramos ao que não nos sustenta. Ou então erguemos muros, com medo de sentir de novo. Muitas vezes aceitamos menos do que merecemos, criamos expectativas sobre vínculos frágeis, fantasiamos amores onde só existe ausência. Servimos banquetes de afeto a quem só sabe lidar com afetos descartáveis.

E o que se desenha não é uma história de amor, mas o encontro nu entre duas dores. Uma tenta acolher, alimentar, se fazer necessária. A outra quer desaparecer, calar o corpo, não mais sentir. E talvez, nesse abismo entre o excesso e a recusa, entre a urgência de dar e o desejo de não existir, o filme nos mostre aquilo que tantas vezes fazemos: buscar no outro a resposta para um vazio que é só nosso.

Talvez seja por isso que esse filme me pega tão fundo. Porque ele não fala de romance. Ele fala de sobrevivência afetiva. Fala de como a gente tenta preencher vazios antigos, muitas vezes em silêncio, e de como o afeto, quando não acolhe, vira compulsão. Vira vício. Vira desespero. Porque quando o amor não nos preenche… ele nos devora.
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