O que fazemos com o amor que fica quando quem a gente ama vai embora?

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Nesse último final de semana, revi Fleabag com a minha melhor amiga, uma série sobre a qual eu pensava em escrever há tempos, mas sempre achava que não teria maestria suficiente para escrever sobre ela. Mas, olha eu aqui…rsrs!

Essa obra-prima criada e protagonizada por Phoebe Waller-Bridge, foi a primeira série que assisti no catálogo do Prime Vídeo. Ela tinha acabado de entrar na plataforma naquela semana. Lembro que, assim que assistir a primeira temporada, comecei a indicar para todo mundo.
Havia em mim uma necessidade quase urgente de apresentá-la às pessoas, como se, assistindo, elas pudessem entender algo sobre o meu próprio jeito de ver e sentir o mundo — meu humor quebrado, ácido, sensível.

Anos depois, na terapia, comecei a compreender por que essa conexão era tão profunda. Era sobre a maneira como tentamos preencher os vazios dentro da gente. Era sobre o quanto dói perder.
E sobre o que a gente faz para continuar existindo apesar da dor.

Em Fleabag o luto é o fio condutor da história. O que começa com um humor provocativo e situações aparentemente banais logo revela uma ferida profunda: a morte da mãe, seguida do suicídio da melhor amiga, Boo.

A “Fleag” usa o humor, o sexo, a masturbação, o sarcasmo e o silêncio como formas de lidar com a perda, com a ausência da mãe e da amiga. Como mecanismo de defesa, ela transforma suas tragédias em piada porque é a única forma que encontrou de continuar. Ela faz piada do sexo, da solidão, das próprias contradições. Isso não a salva, mas a mantém de pé.

A série é mais do que uma comédia ácida: é um retrato honesto da dor, do luto e das tentativas (falhas ou não) de seguir em frente na vida e no amor. Ela nos faz questionar o que a gente faz com esse sentimento que sobra? Com as lembranças? Como seguimos em frente quando algo tão profundo nos falta?

Talvez não exista uma resposta exata. Mas revisitar essas histórias — na ficção e na vida — é um jeito bonito de não esquecer de quem a gente foi… E do quanto ainda pode amar.

Quando perdemos alguém importante, o sentimento não parte junto. Fica, lateja, ocupa espaço no peito e às vezes até transborda. O mundo ao redor segue, mas dentro da gente algo permanece suspenso, procurando um novo lugar para existir.

Não é raro ouvirmos que o tempo cura tudo. Mas o tempo não apaga, ele ensina a reorganizar. Ensina que o amor não precisa acabar junto com a presença física de quem partiu. Esse amor pode ser transformado: em gesto, em lembrança, em arte, em cuidado com os outros ou com a gente mesma. Pode ser canalizado para um novo projeto, uma nova fase, uma nova forma de amar.

O luto, seja de uma relação ou de uma vida, é também um exercício de ressignificar. De olhar para o amor que ficou e dar a ele uma nova morada. Às vezes essa morada é o silêncio. Outras vezes é uma carta que nunca será enviada. Ou um texto num blog.

Amar é aceitar que nem tudo está sob nosso controle. Que pessoas mudam, vão embora, partem. Mas o que elas despertaram em nós — esse amor que fica — é nosso. E cabe a nós decidir o que fazer com ele. Talvez a resposta não seja um destino final, mas um caminho: seguir amando, de outra forma. Porque o amor, quando verdadeiro, nunca se perde. Ele se transforma.

Fleabag é, no fim, uma série sobre a tentativa de cura.
Sobre como amamos errado e ainda assim buscamos amar.
Sobre como sobrevivemos aos nossos traumas, aos nossos lutos, aos nossos fracassos. É sobre tentar seguir em frente quando tudo em nós ainda grita por quem foi embora. E sobre o que fazemos com o amor que sobra.

A série não oferece finais fáceis. Mas nos entrega algo mais precioso: verdade.

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