
Você já teve alguma figura feminina na sua vida que te tirava do sério e, ao mesmo tempo, te fazia sentir viva? Aquela relação difícil de definir entre amizade, admiração, competição, quase um amor, quase uma guerra. E que te ensinou coisas que você nunca admitiria em voz alta. Que te cutucava onde mais doía, que te dizia verdades com o sarcasmo de quem te conhece demais e o carinho de quem te quer por perto, mesmo que pareça o contrário.
Então se prepara porque Hacks vai te atravessar. E talvez te cure um pouquinho também.

Deborah e Ava são duas gerações diferentes tentando se amar com as ferramentas que têm: o sarcasmo, a briga, o humor. E o humor, neste caso, é tudo: é forma de continuar, de se proteger, de pedir desculpas sem dizer “desculpa”. É como dizem coisas que não sabem dizer. E como machucam sem querer.
Hacks nos mostra que, às vezes, aquilo que nos salva também nos fere. Que o riso pode ser uma ponte, mas também um abismo. Que para algumas mulheres, sobreviver foi aprender a rir da dor mesmo que, no fim do dia, ninguém esteja mais rindo.
E talvez, justamente por isso, essa série machuque e abrace ao mesmo tempo.

Deborah Vance (Jean Smart), é a mulher que há décadas sobrevive a um mundo hostil rindo antes que riam dela. Transformou traições, machismo, rejeição e abandono em um espetáculo de stand-up com aplauso final. Ela não chora em público. Ela pisa no palco. Usa lantejoulas. Ri de si antes que alguém tente. E segue.

Ava Daniels (Hannah Einbinder), é o oposto e o espelho. A juventude moderna com suas verdades afiadas, seus traumas visíveis e suas feridas abertas em forma de ironia. Ava também usa o humor como escudo. Mas o dela vem com culpa, impulsividade e medo de ser esquecida. Ela não quer só ser ouvida — quer ser compreendida. Quer mudar o mundo com um roteiro e um tweet, mas nem sempre consegue mudar a si mesma.

De início, elas não se suportam. Não se entendem. Deborah acha Ava arrogante, insolente, mimada. Ava enxerga Deborah como ultrapassada, cínica, esgotada.
Mas entre as piadas ácidas e os diálogos cortantes, mora o que mais importa: o vínculo que elas não sabem nomear. Um afeto que se constrói nos bastidores, nos pedidos de desculpa mal feitos, nas mágoas não ditas, nos silêncios que dizem tudo. É uma relação que poderia ser mãe e filha, mentora e aprendiz, amigas ou simplesmente duas mulheres tentando não desmoronar no mesmo palco da vida.

Deborah e Ava. Duas mulheres feridas. Duas gerações atravessadas pelas mesmas dores, mas com estratégias opostas de defesa.

O humor, entre elas, é tanto arma quanto afeto. Uma diz “você é insuportável” querendo dizer “eu te admiro”. A outra responde “você é antiquada” querendo dizer “me ensina a ser forte como você”.

Mas pedir desculpas? Ah, isso elas mal sabem fazer. O orgulho é uma segunda pele. Pedir perdão seria admitir vulnerabilidade, e o mundo já não perdoa mulheres frágeis.

As duas ultrapassam limites. Se machucam. Se afastam. Mas sempre voltam. Porque existe amor ali — um amor que não é dócil, mas é honesto.

Hacks é sobre isso. Sobre laços que nascem entre cacos. Sobre duas mulheres que se batem porque, no fundo, estão tentando se abraçar sem admitir. Deborah e Ava são o retrato dessas relações que quase dão certo. Não por falta de amor, mas porque foram minadas de fora pra dentro.

É difícil amar quem nos desafia. Quem expõe nossos pontos cegos. Quem nos obriga a mudar de perspectiva. Deborah, com sua elegância vintage e sua história de guerra, quer respeito. Ava, com sua urgência moderna e ferida aberta, quer ser ouvida. Nenhuma sabe pedir perdão direito, mas ambas vão aprendendo, tropeçando, se ofendendo, voltando atrás.

Elas se chocam porque são espelhos. E o reflexo assusta. O humor ácido é só uma camada. Deborah o usa como couraça. Ava, como mecanismo de defesa. E quantas vezes nós também não fizemos isso?
Em Hacks, o que parece um encontro improvável entre gerações, se revela uma dança entre duas solidões.

Deborah é a mulher que teve que engolir o orgulho, os sentimentos e até sua própria voz para caber no mundo dos homens. A mulher engraçada, afiada, poderosa — mas que há décadas performa versões de si mesma para continuar sendo tolerada.

Ava é o oposto e, ao mesmo tempo, o reflexo: é a geração que diz tudo, questiona tudo, mas que ainda busca um espaço onde não precise se moldar para ser aceita.

E Hacks fala sobre etarismo, sim. Sobre ser mulher, sobre a dor da invisibilidade, sobre recomeçar quando o mundo acha que você já acabou. Mas também fala sobre legado, orgulho e a coragem de continuar criando, mesmo quando ninguém mais está olhando.

Não é uma série só sobre comédia. É sobre o que resta quando a risada termina. E ainda assim, você ri. Porque Deborah e Ava não nos deixam esquecer: o riso também é arma, também é escudo, também é amor.

A série desenha com delicadeza a brutalidade de ser mulher em qualquer idade. Ser mulher que ri, que cria, que deseja ser ouvida. Ser mulher que já teve tudo e perdeu quase tudo. Ser mulher que ainda nem teve chance de errar em paz. Deborah e Ava são opostas, mas também repetem os mesmos gestos: esperam ser validadas, esperam ser lembradas, esperam poder apenas… existir.

E nesse embate geracional, não há vitoriosa. Há aprendizado. Há dor. Há afeto. Há duas mulheres tentando se manter inteiras num mundo que adora despedaçá-las. E Hacks mostra como é amar quem te obriga a crescer. Como é ultrapassar limites e aprender a voltar deles. Como o ego pode ser o maior vilão, e o riso, o único remédio.

É uma dança: ora competição, ora cumplicidade. É briga de egos, mas também construção de afeto. É atravessar o desconforto para chegar num lugar de verdade. O encontro entre essas duas mulheres não é um arco de redenção, é um campo de batalha emocional. Ambas são feridas demais para se entregarem ao afeto, e ainda assim, se cuidam com uma ternura torta, expressa em sarcasmo, confrontos e uma estranha lealdade. Elas não se tornam melhores, se tornam mais verdadeiras. E isso é muito mais revolucionário.

No fim, a piada só funciona se tiver verdade. E o amor também.
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